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Saúde Cuidados especiais

Saúde dos pequenos: cardiopatia congênita afeta 29.000 crianças por ano

Segundo dados da OMS, 6% dos afetados morrem antes de um ano de vida devido a doença

12/06/2020 10h55 Atualizada há 3 semanas
Por: Jean Hipólito Fonte: Time News
Saúde dos pequenos: cardiopatia congênita afeta 29.000 crianças por ano

A Organização Mundial de Saúde (OMS) estima que cerca de 130 milhões de crianças em todo o mundo tenham algum tipo de doença cardíaca congênita. Uma proporção de um caso por cem nascimentos, de acordo com a American Heart Association, atingindo 1,35 milhão de pacientes por ano. No Brasil, segundo o Ministério da Saúde, existem dez casos por mil nascidos vivos, estimando o número de crianças nascidas com cardiopatia congênita em 29.000 por ano, e cerca de 6% delas morrem antes de completar um ano de vida. Na apresentação grave da doença após o nascimento, ela pode ser responsável por 30% das mortes no período neonatal.

A cardiopatia congênita é um grupo de anormalidades na estrutura do sistema cardiocirculatório, secundárias a uma mudança no desenvolvimento embrionário, que pode aparecer nas primeiras oito semanas de gravidez, quando o coração do bebê é formado, causando insuficiência circulatória e respiratória, que pode comprometer a qualidade de vida do paciente.

Segundo Klebia Castello Branco, presidente do Departamento de Cardiologia Congênita e Cardiologia Pediátrica ( DCC / CP) da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), o diagnóstico precoce é o principal fator para que a criança com cardiopatia possa receber os cuidados corretos e no tempo necessário. “As doenças cardíacas congênitas são a terceira principal causa de mortalidade infantil e, como não são evitáveis, o diagnóstico e o tratamento precoces podem, na maioria dos casos, reverter a doença”, explica

Para reforçar essa importância e os desafios do pleno acesso à saúde das pessoas com esta doença, nesta sexta-feira, 12 de junho, é comemorado o Dia Nacional de Conscientização das Cardiopatias Congênitas. A data também é uma forma de homenagear pais, familiares, profissionais e outras pessoas que lutam pela vida e enfrentam as dificuldades dessas doenças.

Em muitos países do hemisfério norte, essa data já está institucionalizada e faz parte do calendário, como os Estados Unidos, onde é comemorado em 14 de fevereiro (Dia dos Namorados). No Brasil, a data escolhida seguiu a alusão americana, com uma adaptação à nossa cultura para o Dia dos Namorados, no mês de junho. “Esse dia deve ser um instrumento de conscientização para que as informações cheguem ao maior número possível de pessoas, aumentando as chances de mais e mais crianças receberem o tratamento necessário”, reforça Klebia.

Presente desde o nascimento, a cardiopatia congênita pode ser diagnosticada mais tarde, inclusive na idade adulta, mas com o tratamento aprimorado é possível viver satisfatoriamente. Entre os possíveis fatores que causam a doença estão algumas condições maternas, como diabetes mellitus, hipertensão, lúpus, infecções como rubéola e sífilis, uso de medicamentos e drogas e histórico familiar. Pais e mães com cardiopatia congênita têm duas vezes mais chances de ter um bebê com cardiopatia.

Muitas mães só descobrem que seu bebê tem um problema cardíaco após o nascimento quando o Little Heart Test é realizado. Esse exame deve ser realizado nos primeiros dias de vida da criança, ainda na maternidade. O teste é realizado com um oxímetro, que mede o nível de oxigênio no sangue e na frequência cardíaca do bebê - é um teste de baixo custo, rápido, não invasivo, indolor e obrigatório, oferecido pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

No entanto, o diagnóstico ainda pode ser feito durante a gravidez, por meio do ecocardiograma fetal, o único teste capaz de detectar cardiopatias congênitas enquanto o bebê ainda está na barriga da mãe, realizado entre 21 e 28 semanas de gestação. “Esse diagnóstico durante a gravidez pode salvar muitas vidas, pois algumas doenças cardíacas precisam de intervenção e um centro especializado assim que o bebê nasce. No país, pelo menos 50% dos casos são diagnosticados no pré-natal”, explica o cardiologista pediátrico.

Infelizmente, esse teste não está no protocolo pré-natal padrão e é solicitado apenas quando há casos anteriores de cardiopatia congênita na família ou alterações na ultrassonografia.

Portanto, o acompanhamento médico pré-natal é importante para o diagnóstico, se houver fatores que levantem a suspeita clínica de problemas cardíaco-fetais. O ultrassom morfológico também pode indicar sinais de doença cardíaca.

O Ministério da Saúde informa que o SUS possui profissionais qualificados para identificar os sinais e sintomas de cardiopatias, diagnosticá-los e fornecer acompanhamento adequado. O Brasil possui 69 unidades de saúde pública, distribuídas em 20 estados e no Distrito Federal, para realização de cirurgias cardiovasculares pediátricas. Considerando que 80% das crianças com cardiopatia precisam ser operadas em algum momento de suas vidas - e metade delas precisa de cirurgia no primeiro ano de vida -, o governo federal percebeu que era necessário aumentar o número de procedimentos realizados no sistema público, que em 2017 estava abaixo de dez mil. Dados do MS em 2018 mostram que 3.603 crianças morreram de malformações cardíacas congênitas e doenças do sistema circulatório.

Para melhorar a rede de atendimento, o Ministério da Saúde lançou, em 2017, o Plano Nacional de Assistência à Criança com Cardiopatia Congênita. Na época, houve um aumento nos valores pagos por 49 procedimentos de cirurgia cardiovascular pediátrica, com um aumento médio de cerca de 60%. Além disso, o tipo de financiamento federal foi modificado, com o custo dos procedimentos a serem realizados por meio do Fundo de Ações Estratégicas e Compensação (FAEC), um instrumento que garante o pagamento pós-produção dos procedimentos realizados sem qualquer interferência das decisões locais.

Desafios

Nos últimos tempo foram realizados avanços no acesso de pacientes cardíacos ao tratamento cirúrgico, porém é necessário manter as ações realizadas desde então e incentivar outras medidas propostas pelo plano do governo federal, incluindo a ampliação do acesso ao diagnóstico e o treinamento do equipe multidisciplinar no cuidado.

O atendimento integral às crianças com cardiopatia no Brasil é um dos maiores desafios do SUS, devido às dimensões continentais do país, distribuição geográfica desigual dos centros de referência em cardiologia pediátrica e cirurgia cardíaca e falta de serviços especializados em alguns estados, regiões Norte e Nordeste, com uma anomalia ainda não diagnosticada e, consequentemente, não tratada adequadamente. Mesmo na rede privada, existem estados que não possuem equipes multidisciplinares especializadas para atender essa parcela da população e a assistência precisa ser realizada em centros especializados de alta complexidade.

O tratamento clínico da cardiopatia congênita é realizado de acordo com a condição da criança. Algumas doenças cardíacas congênitas não necessitam de tratamento, pois podem ser curadas espontaneamente. As doenças cardíacas que evoluem mais severamente geralmente têm a opção de tratamento cirúrgico, algumas vezes realizado no período neonatal, outras vezes no bebê ou criança mais velha, conforme necessário.

Atualmente, existe a opção de cateterismo cardíaco terapêutico, que pode realizar procedimentos paliativos e até curativos. Com a melhoria do tratamento clínico e cirúrgico, a maioria dos pacientes chega à idade adulta. Existem países onde há mais adultos do que crianças com doença cardíaca congênita.

A apresentação clínica da doença é bastante variável, incluindo formas assintomáticas e detectada apenas com um exame físico completo. Os sintomas mais comuns são falta de ar, cansaço ao esforço, cianose (cor azulada da pele), arritmias, síncope, pressão alta, entre outros, e cansaço na alimentação, no caso de bebês.

Os cardiologistas são unânimes em dizer que o ideal é corrigir o defeito estrutural. Segundo eles, de acordo com o caso, o bebê pode ser submetido a uma intervenção ainda no útero, ser submetido a cirurgia imediatamente após o nascimento ou também esperar meses ou anos para chegar à sala de cirurgia.

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